Quem é o meu próximo?

Interrogado pelos fariseus acerca de “qual o maior mandamento da Lei”, Cristo respondeu “Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Esse é o maior e o primeiro mandamento. O segundo é semelhante a esse: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Desses dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas” (Mateus, 22, 39). Esta resposta, que cita duas passagens do Deuteronómio (6, 5) e do Levítico (19, 18), determinou a ética do Ocidente cristão, sobrevivendo na versão laica com o segundo mandamento, que impulsionou os movimentos sociais e humanitários dos séculos XIX e XX. Notamos todavia que Cristo não se limitou ao “maior” mandamento e fez questão, não só de indicar um segundo, mas de o assumir como “semelhante” ao primeiro, reduzindo explicitamente a suposta distância entre eles. O que se confirma ao acrescentar que os “dois mandamentos” são o cerne de toda a revelação bíblica.

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Interrogado pelos fariseus acerca de “qual o maior mandamento da Lei”, Cristo respondeu “Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Esse é o maior e o primeiro mandamento. O segundo é semelhante a esse: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Desses dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas” (Mateus, 22, 39). Esta resposta, que cita duas passagens do Deuteronómio (6, 5) e do Levítico (19, 18), determinou a ética do Ocidente cristão, sobrevivendo na versão laica com o segundo mandamento, que impulsionou os movimentos sociais e humanitários dos séculos XIX e XX. Notamos todavia que Cristo não se limitou ao “maior” mandamento e fez questão, não só de indicar um segundo, mas de o assumir como “semelhante” ao primeiro, reduzindo explicitamente a suposta distância entre eles. O que se confirma ao acrescentar que os “dois mandamentos” são o cerne de toda a revelação bíblica.

O amor integral a Deus e um amor ao próximo idêntico ao amor de cada um a si mesmo são para Cristo o centro da vida ética e espiritual. A tradição judaico-cristã da qual somos herdeiros, mesmo nas versões ateia e agnóstica que sacrificam o primeiro mandamento, transmitiu-nos um entendimento pouco questionado desses dois objectos do amor como sendo, respectivamente, o Ente e criador supremo e os seres humanos, criados à sua imagem e semelhança, excluindo a restante criação, que existiria apenas para ser dominada pelo homem (Génesis, 1, 26). Daqui derivou uma das maiores justificações do antropocentrismo ocidental, que reforçou tendências vindas das raízes greco-romanas e hoje – com a globalização capitalista, a explosão demográfica e o aumento exponencial do poder industrial e tecnológico – resulta na devastação do planeta, na desconsideração dos animais não-humanos e na manutenção de dezenas de biliões desses seres, com sensibilidade e sentimentos semelhantes aos nossos, em campos de concentração, escravatura e tortura, piores que Auschwitz, para satisfazer a ganância das multinacionais da carne e a gula dos consumidores dos países ditos desenvolvidos. Isto com prejuízo da saúde pública, dadas as toxinas, hormonas e antibióticos que saturam essa carne, além de um terrível impacto ambiental, já denunciado pela ONU.

Uma mente aberta deve contudo questionar a interpretação dos textos, sobretudo os que se apresentam como sagrados e mais são instrumentalizados por interesses inconfessados. Na verdade, o que é Deus? A palavra “Deus” procede da raiz indo-europeia dei, que significa “tudo o que brilha”, de onde vem o português dia. Neste sentido, Deus pode interpretar-se não como um ser exterior ao homem e ao mundo, mas antes como a luz da consciência que há em todos os seres. E quem é o meu próximo? Aquele que pertence ao mesmo grupo familiar, social, profissional, económico, nacional, étnico, cultural, linguístico, político ou religioso? Aquele que pertence à mesma espécie, ao mesmo planeta ou à mesma galáxia? Ou o meu próximo é aquele de quem me sentir próximo, amando-o ao ponto de o não sentir separado de mim? O meu próximo tem então de ter duas pernas e dois braços ou pode ter quatro patas, muitas ou nenhuma, caule, tronco, folhas, flores e frutos? Tem de ter cabelos e pele nua ou pode ter pêlos, penas, couraça, escamas e casca? Tem de viver sobre a terra ou pode rastejar dentro dela e voar e brilhar nos céus? Tem de ter uma vida individual ou pode ser a própria terra, as areias, as rochas, os minérios, as águas, os ventos, o fogo e as energias que tudo impregnam? Tem de falar a minha linguagem ou pode miar, ladrar, zumbir, uivar, cacarejar, grunhir, mugir, relinchar, rugir, trinar, grasnar, trovejar, soprar, relampejar, chover, florir, frutificar, repousar e mover-se em silêncio? Tem de ter forma e ser visível ou pode não a ter e ser invisível? Tem de ter vida consciente e senciente? Tem de ter vida? Tem de ser algum ser ou coisa ou pode ser tudo? A empatia, o sentir o outro como o mesmo, o amor e a compaixão ante o que é animado ou simplesmente existente, têm limites? Temos limites?

Talvez por isso Cristo não haja definido o próximo e haja dito que o amor a ele é “semelhante” ao amor a Deus. Pois talvez só esse amar integralmente tudo quanto existe e vive, tal como nos amamos a nós mesmos, possa fazer surgir no coração essa luz da consciência que o homem chama Deus.