A mulher entre Cristo e Buda

Vivemos um ponto de mutação civilizacional no qual, segundo Fritjof Capra, a mais profunda transição consiste no lento mas “inevitável declínio do patriarcado”, com a crescente redescoberta do valor da mulher e do feminino em todos os aspectos da vida. Feminino não é todavia sinónimo de mulher, sendo antes uma polaridade do ser e da consciência que, com o seu complemento masculino, pode ser reconhecida em todo o ser humano, mulher ou homem. Tradicionalmente, contudo, essa polaridade está mais activa nas mulheres.

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Vivemos um ponto de mutação civilizacional no qual, segundo Fritjof Capra, a mais profunda transição consiste no lento mas “inevitável declínio do patriarcado”, com a crescente redescoberta do valor da mulher e do feminino em todos os aspectos da vida. Feminino não é todavia sinónimo de mulher, sendo antes uma polaridade do ser e da consciência que, com o seu complemento masculino, pode ser reconhecida em todo o ser humano, mulher ou homem. Tradicionalmente, contudo, essa polaridade está mais activa nas mulheres.

No ciclo patriarcal da civilização, iniciado nas invasões indo-europeias, o feminino deixou de ser a figura nuclear do sagrado – reconhecido na imanência da terra, grutas, cavernas e águas e simbolizado por uma Deusa-mãe de seios, ventre e ancas opulentos – cedendo a primazia mítico-religiosa aos deuses masculinos e bélicos do céu e da luz, de onde a própria palavra Deus, de uma raiz indo-europeia que significa “o que brilha”. No imaginário tornado predominante, um Deus masculino passou a habitar o céu, enquanto a natureza, feminina, viu o seu estatuto reduzido ao de mera criatura, o que reflectiu o domínio familiar, social e político do homem sobre a mulher.

Neste paradigma se desenvolveram em geral as grandes religiões do mundo, não sendo excepção o budismo e o cristianismo, havendo todavia que considerar a sua diversidade interna. Se em algumas tradições budistas se diz que o próprio Buda resistiu a admitir mulheres no seio da comunidade monástica, receando que daí viesse a sua decadência, já no budismo tântrico se afirma que o Buda atingiu o Despertar não após abandonar o mundo, mas em plena e beatífica união sexual com a sua mulher Gopa (Candamaharosana-tantra). Se é verdade que na tradição do budismo Hinayana as mulheres oravam para renascer como homens a fim de chegar à Iluminação, já no Mahayana se proclama a plena igualdade dos dois sexos e nos preceitos do Vajrayana se considera que a última das catorze transgressões é “insultar as mulheres ou considerá-las inferiores”, num contexto em que toda a mulher incarna a sabedoria transcendente.

A complexidade cristã não é menor, conforme consideramos os evangelhos canónicos ou os apócrifos de tendência gnóstica. Se nos evangelhos tidos por ortodoxos Cristo prefere Pedro ou João, já no Evangelho de Maria Maria Madalena é a discípula preferida de Cristo, que lhe confia os ensinamentos secretos, o que causa indignação a Pedro. Isto confirma-se no Evangelho de Filipe, que apresenta a mesma Maria Madalena como a companheira íntima (koïnonos) de Cristo, a quem “amava […] mais que a todos os discípulos” e “beijava frequentemente na boca”. Por outro lado, no Evangelho de Tomé, Cristo exorta a que se entre no “Reino” transcendendo toda a dualidade, fazendo do “dois Um” e “do masculino e do feminino um Único”. Tal como o Buda, Cristo é aliás visto por vários teólogos (São Máximo o Confessor, Escoto Eriúgena) como a plenitude andrógina do ser humano, tendo integrado e transcendido a diferença sexual.

Quanto ao cristianismo institucional, avultam em São Paulo as tensões entre a transcensão em Cristo de todas as discriminações étnicas, sociais e de género (“Não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher, pois todos vós sois um só em Cristo Jesus”, Gálatas, 3, 28) e a apologia da subordinação da mulher ao homem, pois “o homem não foi criado para a mulher, mas a mulher para o homem” (1 Coríntios, 11, 9). Essa tensão vem até aos dias de hoje, crescendo a contestação da tradição patriarcal e misógina que na Igreja católica interdita o casamento aos padres e o sacerdócio às mulheres.

Um notável precursor do movimento a favor da igualdade de género na Igreja está ligado às raízes da cultura portuguesa. Prisciliano, um laico eleito bispo pelo povo, liderou no séc. IV, na Galécia e na Lusitânia, um movimento onde as mulheres oficiavam nas igrejas e os evangelhos apócrifos eram lidos e comentados. Acusado de heterodoxia, paganismo, panteísmo e vegetarianismo, foi o primeiro mártir que a Igreja fez no seu seio, tendo sido decapitado após um processo precursor da Inquisição. O priscilianismo sobreviveu vários séculos e Jaime Cortesão e Agostinho da Silva viram nele um dos factores de diferenciação cultural da futura nacionalidade portuguesa.

Seja como for, há cada vez mais vozes a proclamar que o futuro é das mulheres e que o mundo necessita urgentemente dos valores de amor e compaixão que elas encarnam. Uma delas é o próprio Dalai Lama, que tivemos o privilégio de traduzir em Lisboa quando disse esperar que o seu sucessor seja uma mulher.